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Certificados de aforro ou crowdfunding imobiliário: qual escolher
Um dá 2,5% garantidos pelo Estado, o outro anuncia 10% sem garantia nenhuma. Porque é que os dois números não se comparam, e como decidir com as regras de setembro de 2026 na mão.
A pergunta que aparece sempre
Quem tem poupanças em Portugal conhece os certificados de aforro. São o produto do Estado, toda a gente já ouviu falar deles, e por isso são a régua com que se mede tudo o resto. A pergunta chega quase sempre pela mesma ordem: se um projeto de crowdfunding imobiliário anuncia 10% e os certificados dão 2,5%, porque é que alguém ficaria nos certificados?
Porque os dois números não medem a mesma coisa. Um é uma taxa garantida pela República Portuguesa. O outro é uma estimativa de um promotor privado sobre um projeto que ainda não aconteceu. Pô-los lado a lado sem dizer isto é a forma mais rápida de tomar uma má decisão.
Certificados de aforro: as regras, em setembro de 2026
A série em comercialização é a Série F. As condições são públicas e definidas pelo IGCP, a agência que gere a dívida pública portuguesa.
| Certificados de Aforro, Série F | |
|---|---|
| Taxa base | Euribor a 3 meses (média dos 10 dias úteis anteriores) |
| Limite da taxa base | Máximo 2,50%, mínimo 0% |
| Prémio de permanência | +0,25% (anos 2 a 5), +0,50% (6 a 9), +1,00% (10 e 11), +1,50% (12 e 13), +1,75% (14 e 15) |
| Prazo | 15 anos |
| Subscrição mínima | 100 unidades (100 €) na primeira; 10 unidades depois |
| Máximo por conta | 250 000 unidades |
| Resgate antecipado | Total ou parcial, a partir do primeiro pagamento de juros |
| Capital | Garantido pela República Portuguesa |
| Imposto | IRS retido automaticamente antes da capitalização |
Em setembro de 2026 a taxa bruta para novas subscrições estava nos 2,500%. Há dois pontos aqui que costumam passar despercebidos.
A taxa está no tecto. A taxa base acompanha a Euribor a 3 meses, mas não pode passar de 2,50%. Com a Euribor acima desse valor, o limite está a ser aplicado: se a Euribor subir mais, tu não recebes mais.
O prémio de permanência só começa no segundo ano. Quem subscreve hoje e resgata daqui a um ano fica-se pela taxa base. Os 3,5% ou 4% que por vezes se leem em notícias são o que recebe quem já lá tem dinheiro há mais de dez anos, não quem entra agora.
Crowdfunding imobiliário: o que os números dizem mesmo
Estes são os valores das análises que fiz até agora, plataforma a plataforma. Não são folhetos comerciais: saem da documentação de cada projeto.
| Projetos | Rentabilidade anunciada | Prazo médio | LTV médio | |
|---|---|---|---|---|
| WeCity, dívida | 8 | 10,7% (10,0% a 11,25%) | 12 meses | 54,8% |
| Urbanitae, dívida | 2 | 11,1% (10,75% a 11,5%) | 15,5 meses | 80,2% |
| Urbanitae, mais-valia | 2 | 15,0% | 28 meses | 51,0% |
⚠️ Estas rentabilidades são anunciadas, não realizadas. São o que o promotor estima pagar se tudo correr como planeado. A maioria destes projetos ainda está a decorrer, por isso ninguém, nem eu, pode dizer ainda quanto renderam de facto.
⚠️ As amostras da Urbanitae são de dois projetos cada. Chegam para dar uma indicação, não para tirar conclusões definitivas sobre a plataforma.
O número que merece mais atenção não é a rentabilidade, é o LTV, a percentagem do valor do imóvel que está a ser financiada por dívida. Nos projetos de dívida que analisei, a WeCity ficou em média nos 54,8% e a Urbanitae nos 80,2%. Traduzido: no primeiro caso o imóvel pode perder quase metade do valor antes de o dinheiro dos investidores estar em risco; no segundo, basta uma quebra de 20%. É a mesma "rentabilidade de 11%" com proteções muito diferentes por trás. Explico o cálculo em detalhe em O que é o LTV no crowdfunding imobiliário.
A diferença que decide tudo: o que acontece se correr mal
| Certificados de aforro | Crowdfunding imobiliário | |
|---|---|---|
| Quem garante o capital | República Portuguesa | Ninguém |
| Pior cenário realista | Recebes o capital e juros baixos | Perdes parte ou a totalidade do investido |
| Sair antes do fim | A partir do 1.º pagamento de juros | Em regra não há saída |
| Quanto sabes à partida | Tudo: a fórmula é pública | Depende da documentação de cada projeto |
| Esforço exigido | Nenhum | Ler e avaliar cada projeto, um a um |
Esta tabela é a resposta à pergunta inicial. A diferença entre 2,5% e 10% não é um prémio que o mercado está a oferecer por nada: é o preço do risco de não receber nada.
Quanto isto dá na prática
Com 5 000 €, durante um ano, e já com o IRS de 28% descontado:
| Bruto | Líquido | |
|---|---|---|
| Certificados de aforro (2,5%) | 125 € | 90 € |
| Projeto de dívida a 10,7%, se correr bem | 535 € | 385 € |
| O mesmo projeto, se o promotor falhar | perda parcial ou total | pode ser 0 € e ainda perder capital |
A terceira linha é a que falta em quase todos os artigos que comparam estas duas coisas.
O que os dois têm em comum
Mais do que parece. Os juros dos certificados de aforro e os juros de um projeto de dívida são ambos rendimentos de capitais, tributados em IRS a 28%. A diferença é operacional: nos certificados o imposto é retido e capitalizado automaticamente, sem tu fazeres nada; no crowdfunding tens de declarar, mesmo quando já houve retenção. Escrevi o passo a passo em Como declarar no IRS 2027 os rendimentos de crowdfunding imobiliário.
Como eu penso nisto
Não trato isto como uma escolha entre um e outro, porque não é dinheiro do mesmo tipo.
O dinheiro de que posso precisar não entra em crowdfunding. Um projeto imobiliário não tem botão de saída: se o teu carro se avariar a meio de um projeto a 18 meses, o dinheiro não está lá. Os certificados resgatam-se.
O dinheiro que posso mesmo imobilizar e, no limite, perder é o único que faz sentido pôr em projetos. E mesmo esse, repartido por vários projetos e plataformas, nunca todo no mesmo sítio.
Quem chega ao crowdfunding porque "os certificados rendem pouco" está a fazer a pergunta ao contrário. A pergunta certa não é qual rende mais, é quanto do teu dinheiro é que aguenta desaparecer sem te mudar a vida. Esse valor é o teu tecto. Abaixo dele, vale a pena analisar projetos. Acima dele, nenhuma rentabilidade anunciada compensa.
O que perguntar antes de mover dinheiro
- Vou precisar deste dinheiro nos próximos dois ou três anos?
- Se este projeto der zero, isso muda alguma coisa importante na minha vida?
- Estou a comparar 2,5% garantidos com 10% garantidos, ou com 10% estimados?
- Já li a documentação deste projeto, ou só o cartaz da campanha?
Se a resposta à última for "só o cartaz", ainda não é altura de investir. É altura de ler: como ler a documentação de um projeto.
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Fontes: condições dos Certificados de Aforro Série F e taxa de setembro de 2026, IGCP. Dados de rentabilidade, prazo e LTV, das análises publicadas neste site. Este texto é informativo e não é recomendação de investimento.
Vê isto aplicado a projetos reais
Cada análise do Criterium segue a mesma metodologia, passo a passo.
WeCity · Orihuela, Alicante (Espanha)
Alicante Vistabella Golf
Rentabilidade
10,0% / ano
Prazo
9 meses
Investimento mínimo
500 €
Abertura
30/09/2026, 12:00
WeCity · Mairena del Aljarafe, Sevilha
Sevilha Mairena
Rentabilidade
11,0% / ano
Prazo
12 meses
Investimento mínimo
500 €
Abertura
30/09/2026, 16:00
Urbanitae · Antigua (Fuerteventura), Espanha
Caleta de Fuste
Rentabilidade
11,8% / ano
Prazo
24 meses
Investimento mínimo
Não divulgado
Abertura
02/10/2026, 11:00